Polémica de Nbatonha: Uma ilustração da divisão do país

Opinião: Pedro Rosa Có

Desde há muito que a elite do país se demitiu de construir narrativas que convirjam para o estabelecimento de uma visão inclusiva da sociedade, onde todos se revejam e se conectem, sem prejuízo da rica e saudável diversidade que nos caracteriza.

Num país dividido, os problemas passaram a ser abordados na perspectiva dos interesses de cada grupo. Cada guineense passou a ter um lado. E cada lado tem sempre um rosto, com quem concordamos ou discordamos, amamos ou odiamos.

No caso Mbatonha, não é por acaso que a discussão rapidamente se deslocou para o campo religioso, apesar de o Projeto incluir uma escola e um hospital. Puxar a discussão para a pertinência da mesquita naquele local em detrimento do Parque, gera solidariedades e coloca dois grupos religiosos em confronto. Uma técnica eficaz em sociedades divididas.

Acredito que na cabeça da maioria de guineenses, a oposição entre ambientalistas e religiosos é meramente aparente. Se ela existiu, foi no início da polémica. Na percepção geral, a oposição hoje é entre grupos políticos e sociais que gravitam a volta das duas grandes religiões do país (cristã/católica e muçulmana).

Por outro lado, os ambientalistas, apesar de serem bem intencionados e as suas opiniões serem respeitáveis, aparecem fragilizados pelo facto de as zonas húmidas do Sector Autónomo de Bissau terem sido assaltadas por todo o tipo de construções, outras ainda em curso, sem grande indignação da sua parte (ver o post de Ussumane Grifom Silva Camará sobre o assunto).

Refira-se que sempre faltou uma estratégia ambiental abrangente para o Sector Autónomo de Bissau. Nbatonha foi uma ideia nobre mas foi um projecto avulso por não ter surgido no quadro de uma estratégia para a proteção das zonas húmidas de Bissau.

E a ausência dessa estratégia e a alguma inacção dos ambientalistas em relação às agressões contínuas aos espaços verdes de Bissau, faz com que a defesa de Nbatonha apareça como um acto isolado e susceptível de processo de intenções numa sociedade já de si dividida.

Definitivamente, Nbatonha e o Projecto que deu origem à polémica são vítimas de um país avulso e desconectado, onde não se debatem ideias de forma abstracta para encontrar melhores soluções. Andamos sempre em confronto. Fazemos barulhos. Ninguém se entende com ninguém.

Enquanto isso, provavelmente Nbatonha vai deixar de existir ou algumas das suas áreas serão aproveitadas e integradas no Projecto cuja execução está em curso. Vai se erguer aí uma Mesquita, uma escola e um hospital.

As opiniões vão mudar, tal como mudaram sobre as obras no palácio da república financiadas pelo Rei de Marrocos. Na altura, igualmente agitou-se fantasmas diversos. Agora, aquela zona ganhou vitalidade. Não creio que será diferente com o caso Nbatonha.

Não tarde muito, todos vão voltar para junto das suas trincheiras e esquecer o ambiente e zonas húmidas. Será igualmente esquecida a questão dos locais adequados para os locais de culto religioso.

A grande lição desta crise e de outras, é que a elite do país precisa de recuperar o seu lugar na história e voltar a dinamizar as narrativas de união. De outra maneira, a divisão vai se aprofundado, para a desgraça de todos.

Um país dividido, é um país fraco. Um país fraco pode ser facilmente assaltado e controlado por outros. Nessa altura, todos os guineenses irão perder.

Banjul, Gâmbia, 7.01.2023

Autor: CAP-GB

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