A LIÇÃO QUE VEM DO SENEGAL

Idriça Djaló

O Senegal, país vizinho e irmão, viveu recentemente momentos muito difíceis.

Uma crise de uma amplitude nunca vista no País da Teranga e que provocou a morte de várias pessoas, para além da destruição de bens com custos inestimáveis.

Apresento ao povo irmão do Senegal as minhas condolências por todas as vítimas.

O que começou por uma simples questão de supostas relações intimas entre o jovem líder da oposição senegalesa, Ousmane Sonko e a massagista Adji Sarr, tornou-se a maior crise que o Senegal e a sua democracia jamais conheceram.

Hoje, à medida que as brasas desta enorme fogueira apagam-se lentamente, vão dando lugar aos bombeiros da estabilidade – as autoridades religiosas e a sociedade civil, que se ocupam de encontrar as melhores soluções para a saída da crise do Senegal e do seu povo.

As sociedades democráticas são ciclicamente atravessadas por crises, por vezes violentas. O Senegal não é exceção.

A forma de gerir os acontecimentos que repentinamente, escaparam do controlo, foi determinante para avaliar a qualidade das lideranças e das instituições.

Ela permitiu definir igualmente a capacidade da sociedade, de sobreviver aos acidentes de percurso e de encontrar soluções que consolidem os valores democráticos por natureza frágeis, tirando ilações úteis de acontecimentos infelizes.

A extensão da crise, a sua amplitude, ultrapassaram naturalmente os elementos que estiveram na sua origem.

Colocou em evidência as bolsas de pobreza que as estatísticas das taxas de crescimento, apesar de invejáveis, não conseguem eliminar.

A presença massiva dos jovens e principalmente de crianças nas manifestações, é sinal de uma grave ameaça que pesa sobre os nossos países- a explosão demográfica de África, única na história da humanidade pela sua amplitude e horizonte temporal.

Esta emergência irá alterar profundamente a realidade sociopolítica dos nossos países. Ela representa uma ameaça existencial para a estabilidade dos países africanos, caso não houverem políticas inteligentes que a antecipem.

È urgente que perspectivas de futuro credíveis sejam propostas a juventude africana.

O impacto do COVID 19 agiu como um elemento detonador. Muitos cidadãos senegaleses, a semelhança de todos os países africanos, vivem ao sabor do dia-a-dia.

As medidas sanitárias assumidas para conter a pandemia, tiveram um impacto negativo no quotidiano da maioria dos cidadãos.
E enfim, um sentimento difuso de que o Presidente da República está a tentar obter um terceiro mandato e para tal, a procurar afastar os seus principais rivais.

Os contenciosos judiciais de Karim Wade e de Khalifa Sall são entendidos sob esse prisma. Adiciona-se também o impacto dos discursos hostis sobre a Françafrique, difundidos nas redes sociais.

No final, teremos todos os elementos de um cocktail explosivo.

Retrospectivamente, poderemos retirar desde agora, algumas lições desses acontecimentos importantes.

A primeira lição é sem dúvida alguma a mais importante, refere-se as instituições senegalesas.
Elas foram submetidas a uma violência jamais vista no pais da Teranga. Manifestações violentas sacudiram o pais, do vale do rio Sénégal a verde Casamance, de Dakar a Babel, passando por Thies, Nioro, Kaolack, Sedhiou, Kidira, Tamba, Ziguinchor e Kolda.

A grande novidade é que as instituições resistiram.

Durante o desenrolar da crise, o quadro legal em vigor e os procedimentos democráticos desempenharam plenamente o seu papel e foram respeitados por todos os atores, mesmo se cada um tentou retirar benefícios em cada etapa da crise.

As estruturas judiciais, parlamentares e politicas respeitaram a lei fundamental do País.

A reação da população mostrou a vitalidade da sociedade senegalesa.

As forças de segurança geriram com cautela e no respeito do estado de direito democrático, a irrupção da violência, tão súbita quanto pouco habitual no pais da Teranga.
Nenhum responsável político, nem mesmo Ousmane Sonko, procurou usurpar o poder utilizando a rua.

Nenhum responsável político pediu as forças armadas para se imiscuir e arbitrar a crise política.

Ninguém no País apelou a um golpe de estado.

Nenhum cidadão ou partido político colocou em causa a legitimidade e o mandato do Presidente da República para dirigir o Senegal até ao seu termo, em 2024, apesar da violência da crise política.

O País inteiro uniu-se para homenagear as infelizes vítimas.

Os chefes religiosos apelaram ao término das manifestações e deram o exemplo contribuindo financeiramente para indemnizar as famílias das vítimas.

Esta crise, por mais grave que tenha sido, colocou em destaque a vitalidade da democracia senegalesa. Esta enfrentou manifestações violentas em toda a extensão do seu território.

As autoridades geriram as situações mais complicadas, sem sair do quadro democrático.

As intervenções das autoridades religiosas e da sociedade demonstraram ao mundo a dimensão da tecnoestrutura da estabilidade deste Pais, que admiramos.

Possa o Senegal continuar a dar a África motivos de admiração.

Chapeau Sénégal!


Comentarios
estámos no facebook

cap gb o amanha começa aqui

0 0 vote
Article Rating
Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments

Subscreva email noticias cap-gb

capgb info email seja assinante:

0
Would love your thoughts, please comment.x
()
x