2010-2020: ‘Década perdida’?

Mamadú Mudjataba Baldé
Economista

No início da década vivia-se períodos de expectativas, sonhos e ilusões prometidas a um povo ávido pela mudança. Em Bissau, a poeria estava no ar por todos os lados. A ideia subjacente a “poeira lanta” propalada pela comunicação política hoje, já fazia, na altura, parte do discurso político que fizera o cidadão lambda sonhar e conjeturar um futuro risonho que o Pai-fundador prometera, que o General defraudou, e que ainda não chegou.  A poeira cobria as ruas e ruelas de Bissau, à primeira vista de um recém-chegado, a cidade de Bissau parecia quase abandonada, más, aos olhos dos citadinos a mudança estava realmente acontecer.

Muita poeira no ar, e a propaganda política dizia que o projeto da primeira autoestrada de Bissau iria solucionar o problema de trânsito na capital. A realização do projeto e a instalação dos semáforos alegraram os citadinos, e nas bancadas em Bissau o feito dos semáforos era admirável e deslumbrante

Viviam-se momentos de muita euforia, os projetos faraónicos em carteira como a exploração de bauxite em Farim e o projeto de construção do porto de águas profundas em Buba animavam os espíritos dos guineenses de que a mudança seria de imediato e tangível. A mudança efetuada naquele período remetia a um saudosismo do período pós-independência latente no nosso imaginário como dourado, com fabricas e fabricas. Não obstante, nunca houve um debate técnico sério sobre a viabilidade do modelo adotado na altura, sendo que, a crença neste período dourado continua intacta.

O debate sobre o desenvolvimento teve lugar. O Denarp II estava no centro das discussões técnicas, fizeram-se grandes reflexões sobre como proceder a transformação económica do país e como efetuar as reformas económicas necessárias e inadiáveis do Doing business. A dinâmica programática, reformista e desenvolvimentista estava presente na agenda pública, novos bancos estavam a abrir e a dinâmica económica e empresarial a progredir, parecia que a engrenagem estava a rodar e a economia a crescer.

Apesar das melhorias, os cidadãos ainda com processos traumáticos no subconsciente percebiam sinais pouco animadores no componente político-militar, a presença de uma força estrangeira, assassinatos políticos e a falta de julgamento de assassinatos do período anterior davam sinais de que nem tudo estava tão bem.

E de repente, um reset, um começar de novo, de novo um pouco mais atrás, como vários outros episódios do género no passado, e o País entrou num processo de transição política por dois anos.

Depois deste conturbado período político-militar, as reformas na estrutura militar lançadas caíram por terra, e como sempre, a ideia das eleições de imediato foi vendida como remedio milagroso. Com um entusiasmo ingénuo criou-se de novo muitas expectativas em relação a uma possível transformação económica, social e empresarial num período record pós-eleitoral. A propaganda política não prometera fazer cinquenta anos em cinco, como garantira Juscelino Kubitschek no Brasil, mas a mensagem remitia para a possibilidade de uma transformação rápida.

Em 2014, pela primeira vez, dizia-se nas bancadas e cafés de Bissau, com um orgulho bobo que nos é característico, que chegavam ao poder dois diplomados… dois formados chegavam ao poder rompendo com a tradição anterior, e todos estavam felizes, maravilhados e entusiasmados.

Logo no início do ano 2014 ficou visível que havia duas agendas, duas vias ao processo de desenvolvimento da Guiné-Bissau, um partido dominante e vários polos de poder. “Terra Ranka” e “Mão na Lama” digladiaram-se com vários grupos de interesses. Dava-se o início a política de tudo ou nada e nascia a política de LADO LADO com vários atores e personagens, inclusive a CEDEAO como a grande leviatã determinando quase-tudo e pondo em xeque a “gloria” dos fundadores. Por desencanto nacional, no final da contenda o país ficou, praticamente, de rastos sem honra.

A terra continua estagnada, e ainda importamos Malagueta e suculbembe de Zingunchor. Todo o processo programático da agenda pública daquele período ficou em grande STAND BY enquanto resolvíamos a equação mais difícil da matemática moderna, a disputa política Guineense.

Na ressaca da disputa, vimos o país a quebrar-se, a endividar-se…fora lançada ataques aos pilares da Nação, a mudança dos formados não chegara, a luta de Poder pelo Poder ganhara outros contornos que minavam a coesão social.

O reset como em 2012 não aconteceu, a transição política pacífica que nunca acontecera teve lugar, contudo, a mudança continua uma promessa bem elaborada e quiçá miragem. O país autossabotou-se e bloqueados ficamos, todos a culpar uns aos outros sem que haja um responsável, os dedos da culpa estavam/estão apontados em todas as direções salvo, pela primeira vez, não na direção do Lubu ku Kema costa, os militares.

 A divisão criou classes fúteis, imaginarias e contraditórias, de gentios e civilizados. A onda de frustração e odio levou o país quase ao limite, a corrupção virou regra. A eleição presidencial aprofundou a crise da Nação e do Estado. O discurso dos formados ka negocia, diferentemente do que aconteceu em 2014. As opiniões se divergem entre quem realmente chegou ao PODER, um lado assume que quem chegou ao poder é um autoproclamado e para o outro lado um pragmático que mudará definitivamente o país.

O ano 2020, foi um ano atípico com COVID-19 ceifando vidas e fechando a economia como jamais visto, outrossim, foi marcado por mais disputas políticas e jurídicas e por arranjos de todos os gostos e sabores. A agenda de desenvolvimento ainda pouco clara, e com a dualidade de carácter subjetiva entre a Hora Tchiga e a Poeira Lanta por descriptar.

No quesito desenvolvimento o indice de Desenvolvimento de 0,480 em 2019, abaixo da média de 0,513 dos países do grupo de baixo desenvolvimento humano e abaixo da média de 0,547 dos países da África subsariana indicam o caminho a não trilhar. Enquanto isso, as mulheres continuam a morrer no parto, as crianças desnutridas, as estradas esburacadas, sistema de ensino fraco, saneamento básico inexistente, a agricultura rudimentar e a economia disfuncional e informal.

Na verdade, o quadro não é tão negro, houve melhorias em vários indicadores sociais, macroeconómicos e financeiros, más distante da Guiné-Bissau POTENCIAL e por isso insignificantes.

A presente retrospetiva em forma de big picture dá bases para necessária prospetiva em relação ao próximo quinquénio e ou decénio. Como em 2010 e as linhas gerais continuam intactas, são necessárias reformas no sistema político e eleitoral para garantir maior estabilidade ao sistema. Será necessário efetuar a reforma na defesa para adequar as forças armadas aos desafios nacionais. É urgente a reforma da função pública para adequá-lo aos desafios de desenvolvimento, eficácia, eficiência e efetividade. É preciso efetuar reforma económica para assentar o processo de crescimento em bases mais solidas….

O ano 2021 está a porta e há uma gigantesca tarefa de casa, ainda com lições incompreendidas a realizar, para o efeito, serão necessárias visão, coordenação, participação, clarividência, pragmatismo e coragem para fazer o inadiável.

A existência ou não da estabilidade política, elemento essencial para execução das políticas de reforma dir-nos-á muito sobre a nossa posição no mundo em 2030. Lembrem-se, embora não existe relação de causalidade, não há verdadeira democracia sem desenvolvimento.

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